Mensagem do padre Gregory Gay CM para o advento

Um caminho que nos tornará mediadores eficazes das promessas de Deus

Roma, Advento 2015
Caros irmãos e irmãs, membros da Família Vicentina,
As promessas de Deus

“Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Levítico 26, 12).
“Jamais meu amor te abandonará” (Isaías 54, 10).
“Livrava o pobre que pedia socorro e o órfão que não tinha apoio” (Jó 29, 12).
“Eis que faço nova todas as coisas … não a vedes? (Isaías 43, 19).
“Todo aquele que vive, e crê em min, nunca morrerá” (João 11, 26).
“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele” (João 6, 56).
“Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós” (João 14, 18).
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mateus 28, 20).

Estes textos bíblicos encarnam e expressam a relação de aliança que Deus estabeleceu com a humanidade. É necessário uma forma de presença para que todas essas promessas que citei acima possam ser realizadas. Permitam-me apresentar-lhes alguns exemplos para
explicar o que quero dizer. Quando o povo clamava contra seus opressores que o tornara escravo no Egito [Deus estava presente, escutando o seu clamor], Deus chama Moisés: Vai, eu te envio ao Faraó para tirar do Egito os israelitas, meu povo” (Êxodo 3, 10), [Deus estava
presente e encontrou uma solução para a situação do seu povo]. Após uma árdua disputa, o Faraó ficou mais brando e o povo atravessou o Mar Vermelho para começar uma longa travessia no deserto [Deus estava presente e salvou o seu povo].

Quando o povo teve fome, Deus lhe deu o maná; quando teve sede, fez jorrar água do rochedo [Deus estava presente, acompanhando o povo nos momentos difíceis]. De fato, Deus estava presente em meio às lutas do povo através da liderança de Moisés. Séculos mais tarde, quando uma multidão se reuniu em um outro lugar deserto para escutar os ensinamentos do Mestre, ela foi testemunha da multiplicação dos pães e dos peixes e sua fome foi saciada [Deus estava presente, mas, desta vez fisicamente, na pessoa de Jesus, como mestre, médico e consolador]. No entanto, o Mestre desejava saciar não somente a fome física, mas também a fome espiritual. Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede (Jo 6, 35). As palavras da Carta aos Hebreus resumem o que estou tentando dizer: Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais
pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho (Hebreus 1, 1-2).
Qual é a relação de tudo isto com a liturgia do Advento? Como Vicentinos,
somos chamados a continuar a missão de Jesus Cristo proclamando a Boa Nova a
estas pessoas marginalizadas que vivem na periferia da sociedade: Sim, Nosso
Senhor pede-nos para que evangelizemos os pobres: foi isto o que Ele fez e, é isto
que deseja continuar fazendo através de nós (Coste XII, 79)1. Ao nos
comprometermos com o processo de evangelização, preparamos o caminho do
Senhor e ao mesmo tempo nos tornamos mediadores que realizam as promessas de
Deus. Através dos nossos distintos ministérios/serviços, unimo-nos ao desejo de João
Batista: importa que Ele cresça e que eu diminua (Jo 3, 30).
Uma experiência missionária
Permitam-me partilhar uma de minhas experiências missionárias para ilustrar
este ponto. Durante minha visita à Província de Madagascar em 2011, no momento
da celebração do seu centenário, o nosso coirmão, Padre Anton Kerin, compartilhou
comigo algumas de suas experiências ministeriais em uma região muito distante
1 São Vicente de Paulo, Correspondências, conferências, documentos. Edição de Pierre Coste, Paris, 1920-1925, 14
volumes.
2
Congregação Da Missão ❖ Cúria Geral
desse país. Contou-me a alegria que sentiu ao ver a maneira como a Boa Nova de
Jesus se enraizava na população. Ele falou também das dificuldades de dar
testemunho junto a uma população que jamais tinha ouvido falar do nome de Jesus.
Eu desejei conhecer esta missão e prometi ao Padre Anton que na próxima viagem
iria visitá-la. Mas, foi somente em abril de 2015 que consegui cumprir a minha
promessa; durante dois dias viajei por estradas terríveis, que jamais vi nestes meus
onze anos como Superior geral. Evidentemente, por meus próprios meios, não
poderia percorrer tamanha distância, pois não conhecia estas estradas. Isto significa
que outras pessoas tiveram que me acompanhar. Naquele momento o Visitador,
assim como um leigo e o Padre Anton (que dirigiu durante as nove últimas horas, a
parte mais difícil da viagem) tornaram-se meus companheiros de viagem. Quando
finalmente chegamos ao destino, o Padre Anton nos conduziu à Capela onde fomos
acolhidos pelos membros do governo local e autoridades religiosas. No dia seguinte,
tive o privilégio de celebrar a Eucaristia com a população desta comunidade; era o
domingo das vocações e fiz minha homilia em inglês, que foi em seguida traduzida
em malgaxe. Também pude visitar e celebrar a Eucaristia em uma das novas missões
que foi estabelecida há aproximadamente quatro anos e que agora está florescendo.
Sim, eu cumpri a minha promessa com o Padre Anton, mas ao mesmo tempo,
descobri que tanto ele como aqueles que com ele trabalham são mediadores que
realizam as promessas que Deus e nossos Fundadores fizeram ao povo de
Madagascar.
Neste tempo de Advento, lembramos que Deus foi fiel às promessas feitas aos
nossos pais e que nos foram transmitidas enquanto povo de Deus vivo no meio do
mundo em 2015. Ao refletir sobre estas promessas, percebemos também que nossa
colaboração é necessária para que elas se tornem realidades. Logo, gostaria de
refletir sobre minha experiência missionária em Madagascar e, espero assim,
apresentar um caminho que nos torne mediadores eficazes das promessas de Deus.
Colaboração
Em primeiro lugar, sozinho e por mim mesmo, não seria capaz de realizar o
que tinha prometido fazer. Então, para cumprir a minha promessa, precisei da ajuda e
da colaboração de muitas pessoas, especialmente os guias e motoristas que estavam
acostumados com as estradas e que conheciam nosso itinerário. Nossos Fundadores
prometeram aos nossos senhores e mestres que proclamaríamos a Boa Nova de
Jesus Cristo – e nenhum de nós pode cumprir esta promessa sozinho. Desde o início
Vicente compreendeu que para ser eficaz, ele tinha que convidar outras pessoas para
o seu ministério. Assim, após ter comprovado, durante muito tempo, a virtude e
aptidão de Francisco du Coudray… Antônio Portail… e João de la Salle, Vicente os
convidou a unir-se a ele para pregar as missões populares (Coste XIII, 204). Pouco
tempo depois, os missionários perceberam que eles também precisavam de
colaboradores porque estava claro que “os pobres, algumas vezes, sofrem mais pela
3
Congregação Da Missão ❖ Cúria Geral
falta de organização para socorrê-los, do que por falta de pessoas caridosas” (cf.
Coste XIII, 423), e foi assim que as confrarias da caridade nasceram. Mais tarde, ao
longo do século XIX, quando Frederico Ozanam fundou a Sociedade de São Vicente
de Paulo, ele pediu a uma Filha da Caridade para formar e acompanhar os membros
deste novo grupo de estudantes universitários: …Irmã Rosalie [Rendu] … deu-lhes
conselhos úteis, elaborou para eles uma lista de famílias pobres para visitar e,
entregou-lhes ‘Vales’ de pão e de carne até o momento em que a Conferência, que
fora fundada recentemente, pudesse emitir os seus próprios vales”2. Catarina
Labouré, durante este mesmo período, pedia ao Padre Jean-Marie Aladel para
colaborar com o estabelecimento de um grupo de jovens rapazes e moças,
conhecidos atualmente como a Associação da Juventude Mariana Vicentina.
A colaboração é fundamental para o nosso ser enquanto Vicentinos. Ninguém
pode proclamar sozinho, de maneira eficaz, a Boa Nova; ninguém pode estabelecer
sozinho, estruturas que unam o mundo numa rede de caridade; ninguém e nenhum
ramo da Família Vicentina pode conhecer o único caminho, ou o caminho
privilegiado, que permite aos seus membros seguir Jesus Cristo, evangelizador e
servidor dos pobres. Mas quando partilhamos nossos dons e talentos, quando nos
unimos num projeto comum, quando o “nós” e o “nosso” se torna mais importante
que o “eu” e o “meu”, então nós, juntos em Cristo e como Vicentinos, podemos fazer
a diferença; todos juntos em Cristo e como Vicentinos, tornamos possível hoje a
realização das promessas de ontem.
Sentir-se incomodados e assumir riscos
Em segundo lugar, para manter minha promessa ao Padre Anton Kerin, tive
que viajar por estradas difíceis, arriscadas e que não me deixaram à vontade. A
mesma reflexão pode ser aplicada a nós como Família Vicentina, se quisermos
permanecer fiéis à nossa promessa de ser servidores das pessoas esquecidas,
abandonadas, desprezadas, servidores dos nossos irmãos e irmãs que vivem na
pobreza e na miséria. Se formos honestos, acredito que a maioria dentre nós poderia
admitir que não está muito à vontade com a realidade de colaboração. Uma
abordagem de colaboração no ministério/serviço é muito mais exigente do que uma
abordagem individual – e por ser mais exigente, não nos sentimos naturalmente à
vontade e, até mesmo seremos tentados a evitar uma tal abordarem.
Dediquemos alguns instantes para examinar algumas dessas exigências que
poderíamos considerar ameaçadoras: o ministério/serviço em colaboração implica
uma vontade de ceder o controle e o poder, uma vontade de se aliar aos outros
como parceiros iguais no processo de decisão, uma vontade de convidar os pobres
para sentar conosco ao redor da mesa onde eles tomem as decisões (decisões que
2 Baunard, Frederico Ozanam, Segunda sua correspondência, J. de Gigord, Paris, 1913, pág. 98.
4
Congregação Da Missão ❖ Cúria Geral
lhes dizem respeito e às suas famílias). Este estilo de ministério/serviço exige um
diálogo aberto e honesto assim como uma vontade de chegar a um compromisso –
uma palavra que nestes últimos anos tomou um sentido negativo, tal como fraqueza,
abandono dos ideais e dos princípios morais. Tudo isto pode nos inquietar porque
existe um risco, que se encontra no centro da nossa realidade atual e que nos
convida, vocês e eu, a mudar (e nos sentimos sempre incomodados e angustiados
quando temos que enfrentar uma mudança). Vocês e eu somos convidados a mudar
nossa maneira de interagir uns com os outros, a mudar nossa maneira de realizar
nosso ministério/serviço, a mudar nossa maneira de expressar nossa solidariedade às
pessoas mais vulneráveis da sociedade. O grau no qual estamos dispostos a nos
comprometer no processo de conversão determinará em que proporção nós, unidos
ao Cristo e como Vicentinos, faremos a diferença hoje e amanhã – e determinará a
maneira como as promessas de ontem se tornarão uma realidade hoje.
Elementos que caracterizarão nossa colaboração
Alguns elementos deveriam caracterizar todos os nossos esforços em conjunto
para fazer a diferença no mundo atual e para levar ao cumprimento das promessas
de ontem. Eu sei que se estabelecêssemos uma lista dos elementos necessários,
incluiríamos a oração (sob todas as suas formas), a prática das virtudes, a leitura das
Escrituras e a reflexão, a escuta ativa – vocês conhecem a lista dos elementos. Aqui,
no entanto, gostaria de referir-me a outros elementos que nem sempre encontram
um lugar em nossas listas, mas que acredito serem necessários, se quisermos ser
mediadores eficazes e convincentes das promessas de Deus. Minha lista, além dos
elementos mencionados acima, incluiria também:
• A curiosidade – unindo-nos em um ministério/serviço com os outros ramos
e membros da Família Vicentina, necessariamente nós nos engajamos
numa constante busca da ordem em meio ao caos, a encontrar um sentido
em meio a agitação e ao sofrimento. Esta busca nos leva a fazer a seguinte
pergunta: “por quê?” e dando continuidade a nossa busca, descobrimos
uma outra questão, um outro “por quê?”, e logo depois uma outra pergunta
e um outro “por quê?”. Esta curiosidade, no entanto, deveria nos dar a
coragem para percorrer caminhos novos, mesmo se isto signifique que
seremos feridos, destruídos, caluniados, porque escolhemos seguir por
caminhos ainda em construção (cf. Evangelii Gaudium, 49).
• A análise crítica – a curiosidade e a análise crítica caminham de mãos dadas.
A curiosidade pergunta: “será isto verdade?”, enquanto que a análise crítica
nos torna capazes de olhar além das declarações, tais como: “Esta é a
maneira como sempre fizemos as coisas! Sempre agimos desta maneira! ”
Este elemento de análise crítica é especialmente importante, pois somos
5
Congregação Da Missão ❖ Cúria Geral
chamados a participar do processo da Nova Evangelização, um processo
novo em seu ardor, em seu método e em sua expressão.
• A imaginação criativa – o amor é inventivo até o infinito (Coste XI, 146). Sua
Companhia [seu grupo ou seu ramo da Família Vicentina] não era nessa
altura o que é atualmente e é de crer que não é ainda o que virá a ser,
quando Deus a tiver posto no ponto em que a quer (Conf. de 13/02/1646,
pág.165). A curiosidade leva às formas de imaginação criativa, que por sua
vez nos sustentam em nossos esforços, para proclamar a Boa Nova
enquanto realidade atual que é ao mesmo tempo “boa” e “nova” para os
pobres.
• Os vasos de argila – É a consciência que nos torna capazes de manter nossa
perspectiva e de nos ver tais como somos: Sois pó, e em pó vos haveis de
converter (Liturgia de Quarta-feira de Cinzas). Eu vos louvo e vos dou
graças, ó Senhor, porque de modo admirável me formastes! Que prodígio e
maravilha as vossas obras! (Salmo 139, 14). Escutemos Vicente falar de si
mesmo: sou filho de um lavrador, guardei porcos e vacas e acrescentai que
isto não é nada ao preço da minha ignorância e de minha malícia (Coste IV,
215); tão miserável que sou, prego aos outros, e estou cheio de
pensamentos malditos (Conf. de 24 de agosto de 1654, pág. 473); Ó
Salvador, perdoai a este miserável pecador que desperdiça todos os vossos
desígnios, que se opõe a eles e contradiz a tudo (Coste XI, 271); Senhor,
faço o propósito de me manter firme no bem, porque isto Vos será
agradável (Conf. de 23/07/1656, pág. 590). Cada um de nós possui dons,
talentos e forças, cada um de nós tem seus limites, seus defeitos e suas
fraquezas. Somos ao mesmo tempo grandes e pequenos!
• A capacidade de sonhar com um mundo melhor – como membros de uma
grande família, temos sonhos e visões de um novo dia: …vi, então, um novo
céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram…
Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem
grito, nem dor, porque passou a primeira condição (Apocalipse 21, 1, 4);
mas, antes, que jorre a equidade como uma fonte e a justiça como torrente
que não seca (Amós 5, 24). Como trabalhamos numa pequena parte do
mundo, podemos ser tentados a pensar que nosso ministério/serviço é
insignificante no contexto global da realidade. Mas, isto não é verdade.
Deveríamos imaginar que todos nós fazemos parte de um imenso quebracabeça,
composto por centenas de peças. Ainda que sejamos uma única
peça, esta peça é, contudo, essencial e tem muito valor; esta peça, nossa
peça do quebra-cabeça, com todas as outras peças, contribui efetivamente
na mudança do mundo – juntos fazemos a diferença.

6
Congregação Da Missão ❖ Cúria Geral
Conclusão
Vivemos num mundo onde alguns fazem todo tipo de promessas diariamente,
e se esquecem que tais promessas foram feitas. No entanto, as pessoas esperam que
ajamos de maneira diferente; esperam que sejamos corajosos e que cumpramos
nossas promessas, as de Deus e as dos nossos Fundadores. No século XIX o povo
francês estava desanimado e desencantado. Muitas promessas tinham sido feitas,
mas a maioria continuava a viver na pobreza. Frederico Ozanam compreendeu a
situação e desafiou os membros da Sociedade de São Vicente de Paulo através de
palavras que continuam a nos desafiar no século XXI. Gostaria de concluir esta
reflexão com algumas palavras de Frederico: A terra está fria, somos nós, católicos
[enquanto Vicentinos], que temos que reavivar o calor vital que se extingue, somos
nós que temos que recomeçar a grande obra de regeneração, nem que para isto seja
necessário recomeçar a era dos mártires3…Ficaremos nós indiferentes no meio de um
mundo que sofre e que geme?… Não faremos nada para nos parecermos com esses
santos que amamos? … Não sabemos amar a Deus…porque parece que é preciso ver
para amar, e não vemos a Deus senão pelos olhos da fé e a nossa fé é tão fraca! Mas
os pobres, a esses, nós os vemos com os olhos da carne! Estão ali e podemos pôr a
mão nas suas feridas e as marcas da coroa de espinhos estão visíveis na sua fronte;
aqui a incredulidade não tem lugar e deveríamos cair a seus pés e dizer-lhes como o
Apóstolo: “‘Tu es Dominus et Deus meus’ (Meu Senhor e meu Deus). Vós sois os
nossos mestres e nós seremos os vossos servos; vós sois para nós a imagem sagrada
desse Deus que não vemos e, não sabendo amar de outra maneira, nós o amaremos
nas vossas pessoas…”4
Que Deus nos abençoe neste tempo em que celebramos o Advento; neste tempo
que Deus realiza as promessas que foram feitas aos nossos pais e que são renovadas
hoje: um tempo onde Deus cumpre suas promessas convidando-nos como humildes
instrumentos e ministros zelosos.
Seu Irmão em São Vicente,

G. Gregory Gay, C.M.
Superior geral
3 Cartas de Frederico Ozanam, Cartas da juventude (1819-1840), Ed. Bloud & Gay. (Carta à Léonce Curnier, 23 de
fevereiro de 1835).
4 Ibid., (Carta a Louis Janmot, 13 de novembro de 1836).

Veja também...

Deixe uma resposta