“O Cirineu e o Vicentino”

Por José Carlos de Camargo

Estava fazendo uma reflexão em cima de um fato ocorrido com Jesus Cristo, que é narrado no Evangelho de São Marcos, Capítulo 15, versículo 21, onde ele conta o fato sobre a difícil e penosa caminhada de Jesus para o Calvário, levando sobre seus ombros esfolados e ensangüentados a sua pesada cruz, quando os soldados pegaram um camponês da cidade de Cirene, chamado Simão, que passava por ali, e o obrigaram a carregar a cruz junto com Jesus, para que assim Ele pudesse ter um pouco mais de força e pudesse chegar até o local da crucificação, e então lá ser morto.
Pude então constatar que todos nós temos duas cruzes para ser carregada todos os dias da nossa vida, seja onde e como for.
Trata-se da nossa cruz abstrata e a nossa cruz concreta.
O próprio Cristo teve a sua cruz abstrata, que era, assim como a nossa de hoje, aquela que dá a sua preocupação do dia-a-dia, e que ninguém vê.
Ele pregava, curava, andava por todo lado falando do Pai e do Reino, dava instrução aos seus discípulos, não podia descuidar dos fariseus que queriam “pegá-lo” de alguma forma naquilo que ensinava e falava, enfrentava pecadores e perseguidores, enfim, a cruz abstrata de Jesus também era grande.
O fato de Jesus Cristo ser o Filho de Deus e chamá-lo de “Abba” Pai, foi para os judeus da época uma loucura e fez com que Ele ganhasse a sua cruz concreta, real, de madeira maciça, grossa, pesada, afinal um homem com mais de 1 metro e 80 centímetros, robusto como Jesus, não poderia ser pregado numa cruzinha qualquer. E o sofrimento Dele embaixo daquele peso nós já conhecemos, assim como sua agonia sobre ela.
Voltando para o caso do camponês de Cirene, tenho certeza que também ele tinha a sua cruz abstrata, pois afinal a vida no campo não é lá nenhum mar de rosas. Quantas tribulações e preocupações poderiam estar pesando sobre Simão, o Cirineu? Para aqueles soldados não interessava, o Cirineu também teve a sua cruz concreta, verdadeira e ele ajudou aquele Cristo sofredor, mutilado, ensangüentado e miserável, deu um pouco de si para socorrer quem precisava dele naquela hora. Claro que depois ele teve a sua recompensa, pois com aquele gesto de solidariedade veio a sua conversão e conseqüente salvação.
Assim somos todos nós, vicentinos, confrades ou consocias. Com dois ombros que recebemos de Deus, carregamos de um lado a nossa cruz abstrata, cheia de problemas, preocupações, transtornos, provações, e que ninguém vê também, mas que nós próprios e Deus sabemos quais são, e no outro lado carregamos a nossa cruz concreta, verdadeira, bem mais leve que a de Cristo e do Cirineu é verdade, mas é real e verdadeira também, e essa cruz é o nosso pobre, o nosso assistido, o outro Cristo dos dias de hoje, que sofre e que padece de várias misérias e que tem muitas necessidades.
Meditando sobre mais esse ensinamento divino para minha vida, pude entender e compreender melhor porque todo vicentino também é um cirineu.
Que a nossa cruz concreta seja mais importante que a nossa cruz abstrata e faça que mude a nossa vida da mesma forma que mudou a vida do camponês Simão Cirineu.
Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

O autor é vicentino há 32 anos e Presidente do Conselho Central de Jacareí e formado em Teologia Diaconal pelo Instituto Santa Terezinha da Diocese de São José dos Campos.

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